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Influenciadores

Dicas, partilha de experiências e best practices sobre blogging e influenciadores digitais

18.Jul.19

Entrevista Filipe Morato Gomes: Blog Alma de Viajante

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Natural do Porto, Filipe Morato Gomes já perdeu a conta a todos os países que visitou, mas seguramente ultrapassam uma centena. Em 2001 criou aquele que é o mais antigo e um dos mais premiados blogs de viagens em Portugal - Alma de viajante.  

Pedimos ao Filipe que nos contasse mais sobre o blog, as viagens favoritas e, como não podia deixar de ser, que nos deixasse conselhos tanto para futuros bloggers, como para organizar da melhor forma as viagens. 

 

Conte-nos mais sobre o Filipe e sobre o Alma de Viajante. Como e quando surgiu?

Comecei a viajar muito novo, com os meus pais. Os destinos eram sempre muito próximos e o orçamento reduzido, mas íamos. Lembro-me de fazer campismo selvagem na Serra do Soajo durante muitos anos; das viagens de VW Carocha para Vila Real de Santo António durante o verão; das férias na Zambujeira do Mar, já adolescente; e de uma incursão por Espanha e sul de França de carro e tenda de campismo.

Durante anos a fio, lembro-me também de ouvir histórias de viagem da boca do meu avô, episódios originários do transiberiano, das estepes mongóis, da Amazónia brasileira, enfim, dos quatro cantos do mundo. E talvez tudo isso me tenha despertado a curiosidade.

Depois comecei a viajar por conta própria, mas o embrião daquilo que viria a ser o Alma de Viajante nasceu apenas em 2001, tinha eu 30 anos. É curioso reler o que escrevi na homepage da primeira versão do Alma de Viajante:

“VIAJAR é um prazer, ESCREVER é um estado de alma, FOTOGRAFAR é uma paixão. Juntos, os três verbos formam a Alma de Viajante e este é o seu recanto na rede global. O recanto onde se junta a paixão de fotografar pessoas, culturas e lugares, a sede de escrever sobre tudo e sobre nada e a magia de descobrir o que o imenso planeta tem de belo e diferente.

Alma de Viajante não é mais do que uma partilha de momentos. De opiniões. Partilha de emoções e vivências. Umas publicadas, todas por prazer. O prazer pelo prazer. É um projeto pessoal esperançadamente sempre incompleto. Mas cada vez menos. Porque outras viagens se seguirão, outros negativos haverá para revelar, muitas letras para agrupar. Com alma. Com calma.”

Hoje, e apesar de entretanto o Alma de Viajante se ter tornado no meu trabalho, a essência é exatamente a mesma. Tanto escrevo textos tipo onde ficar em Londres como posts inspiracionais sobre viajar sozinho, mas a essência é a mesma - e está plasmada na assinatura que hoje utilizo: “Viajar. Partilhar. Inspirar.”!

 

Como é que o seu percurso profissional teve impacto no blog? Como foi a transição para blogger a full time?

É curioso perguntarem-me isso porque desde o início o Alma de Viajante agrega tudo o que eu sei fazer. Na prática, nos tempos livres de um emprego ligado ao multimédia fui usando as minhas competências profissionais nessa área - aliadas ao meu gosto por design e comunicação - para construir um site a que chamei Alma de Viajante.

O impacto do percurso profissional na criação do Alma de Viajante foi, por isso mesmo, brutal - como se naquele momento tudo encaixasse de forma perfeita (os conhecimentos de programação, a paixão pela escrita e pela fotografia, o gosto pelo design, tudo).

Dito isto, foi só em 2003, após perder o emprego, que decidi dar uma volta ao mundo e começar a viajar mais a sério. E essa decisão acabaria por mudar definitivamente o curso da minha vida.

No regresso da viagem, passados 14 meses, decidi que a escrita e a fotografia, através do Alma de Viajante, seriam o meu futuro. E foi nessa altura que fiz essa transição, ainda que os rendimentos fossem praticamente nulos durante muito tempo. E assim comecei a dedicar 14, 15, 16 ou mais horas por dia ao Alma de Viajante, tentando construir um espaço dedicado ao jornalismo de viagens que, à época, não existia em Portugal. Felizmente, sempre acreditei que daria certo, caso contrário teria desistido em inúmeras vezes ao longo do percurso.

Mais recentemente, criei também a Hotelandia, onde se divulgam bons exemplos da hotelaria portuguesa, mas nunca consegui ter o mesmo tipo de relação umbilical com a Hotelandia como com o Alma de Viajante.

 

Sente a responsabilidade por ter o mais antigo blog de viagens do país?

Não, de todo. Continuo a tentar ajudar pessoas a viajar mais e melhor e a inspirá-las a serem mais felizes com a humildade de sempre. Não sinto obrigação de nada, a não ser ser ético, transparente e o mais profissional possível nessas partilhas.

De resto, continuo a alimentar o Alma de Viajante com enorme prazer - no dia em que deixar de sentir esse prazer, encontrarei outra coisa para fazer.

 

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Foto: Filipe Morato Gomes (Myanmar)

 

Quais os maiores desafios de fazer uma volta ao mundo?

Na verdade, o mais difícil é tomar a decisão de ir. Viajar é muito mais fácil do que parece - basta desligar o botão “complicador” que todos temos dentro de nós.

 

Como surgiram os workshops de Escrita de Viagens?

Os workshops de Escrita de Viagens são uma forma de partilhar o gosto pela escrita, e ajudar outras pessoas que gostariam de publicar em revistas de viagens ou de criar (ou melhorar) o seu blog de viagens. Simultaneamente, são uma forma de diversificar as fontes de rendimento do Alma de Viajante.

 

Como organiza as suas viagens? Desde a escolha do destino, ao orçamento, etc.

Não tenho nenhum segredo especial, a não ser planear com alguma antecedência para conseguir comprar voos baratos.

Quanto a destinos, atualmente tento encontrar um equilíbrio entre destinos cujas dicas podem ser interessantes para os leitores com destinos mais “fora da caixa” que eu quero conhecer.

Quanto ao orçamento, continuo a viajar de forma independente e com custo controlado. As únicas coisas que mudaram são que agora tento evitar os dormitórios dos hostels e já me permito fazer refeições em restaurantes melhores com maior frequência.

 

Se tiver que eleger a sua viagem favorita, qual seria?

Por todo o simbolismo, por ter sido a mais transformadora das viagens, por ter contribuido decisivamente por tudo o que sou hoje, e por de facto me ter proportcionado das melhores experiências enquanto viajante, sem dúvida que a minha primeira volta ao mundo foi a viagem mais marcante que fiz até hoje. Até porque gosto de viagens longas e de viajar devagar!

 

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Foto: Filipe Morato Gomes (Esfahan - Irão)

 

Qual o destino que todos deviam visitar e recomenda a todos os seus amigos?

O Irão, onde já estive 21 vezes. Como escrevi uma vez, tem provavelmente “o povo mais hospitaleiro do mundo”.

 

Que conselho deixaria a quem pretende seguir um caminho na área dos blogs de viagens?

Foco, ética e persistência. Estudar muito (fotografia, vídeo, escrita, marketing, SEO, design, user experience, etc). Acreditar e não desistir (fundamentais para ultrapassar a frustração de trabalhar muito, muito tempo, sem aparente retrno ou resultados). Não ceder à tentação do dinheiro fácil (estar comprometido com os leitores, não com marcas ou parceiros). E, não menos importante, optar por criar um blog de nicho, diferenciador, por oposição a um genérico blog de viagens.